A dor que sinto, destruiu a casa da minha infância. As memórias, os cheiros e as histórias, desvanecem-se com aquele lugar que sempre considerei meu, por pertencer a eles. Mas meu, nunca foi! Os objetos dos mortos podem trazer-nos conforto durante o luto. São pequenos tesouros carregados de emoções, que nos permitem reviver o passado, através de rituais de memória. Guardamos heranças — conselhos, momentos, risadas e abraços que ficaram por dar. Na série fotográfica 224, Casa 3, o número da morada dos meus avós, partilho o luto por eles, as memórias dos momentos passados, questionando como um lugar pode ser o espelho de nós próprios [nosso eu (self)]. A casa, enquanto espaço afetivo, constrói-se com histórias e pessoas. Pensar no seu fim é como matar uma parte de nós. É como se fechássemos a gaveta das lembranças, tal como fechamos, para sempre, a porta daquela casa. "O self" constrói-se com camadas de experiências e memórias que, em casa, ganham um cenário particular, tornando-se inseparáveis dos objetos e espaços que os acolhem. Quando perdemos esse espaço, é como se fôssemos obrigados a abandonar uma parte do que fomos. Quando a minha avó Maria morreu, dez anos após a morte do meu avô Mário, fomos obrigados a devolver a casa onde viveram mais de setenta anos. A história tinha chegado ao fim. Sem vida, aquele local tornou-se um símbolo de ausência. A pequena casa, inserida numa ilha social, que antes estava rodeada de mexericos, emoções, histórias e gargalhadas, agora tornou-se num lugar que invoca um profundo sentimento de vazio. A minha Maria morreu! Está na hora de arrumar os noventa anos de vida que ela guardava naquela casa minúscula, velha e desajeitada, mas muito estimada. Fotografar é perpetuar um momento eterno. Os eventos terminam, mas a imagem prolonga-se. Despejar a casa de um ente querido é tanto ou mais violento, que a última pá de terra que cai sob a madeira do caixão. É um momento que fica para sempre. E, apesar de termos de lidar com a situação, isso não minimiza a nossa dor. Fotografá-la é sentirmos um conflito permanente; é ter medo de que as memórias desapareçam. Querer eternizar o último adeus, sabendo a dor que provoca é uma auto agressão e, simultaneamente, terapêutico. Durante as várias horas que estive a esvaziar a casa, captei cada momento como se fosse uma despedida. Fotografar esse processo, permitiu-me comunicar todas as emoções, através de cada divisão, objecto e em todas as paredes da casa preenchidas a papel de parede, humidade e teias de aranha. O projeto expositivo 224, Casa 3, para além das fotografias, também envolve outros objectos recuperados e permanentemente enraizados na família. Nomeadamente o fogão do enxoval, a moldura com a fotografia das netas encontrada no “aido”, cheia de fungos, ou a faca que o meu pai trouxe da guerra colonial, que servia para cortar as couves para dar às galinhas, onde mal se lê gravado no ferro ULTRAMAR. Por último, também é apresentado o passepartout da árvore genealógica, que esteve sempre na “salita”, com as fotografias das pessoas mais queridas, que em nada cumpria com as normas genealógicas. Na nossa família, o mais importante é o vínculo emocional e, por isso, criei a árvore geneemocional. Trata-se de uma peça na qual estão todas as pessoas que a união dos meus avós trouxe à minha vida. O luto é considerado um processo que transforma o “self” ao ser confrontado com a perda. Para Sigmund Freud, essa transformação ocorre na medida em que o indivíduo se desliga emocionalmente do que foi perdido, reorganizando o “self” para uma nova realidade. Este processo redefine a identidade, uma vez que a perda altera as relações e identificações que sustentam o “self”. Portanto, não é apenas sobre a ausência do outro, mas sobre a maneira como o “self” se reestrutura e se redescobre após a ausência. A morte sempre existiu e sempre existirá, mas será sempre um tema tão complexo de vivenciar?